quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Teologia Secular

A Teologia Secular desenvolveu-se popularmente mediante a secularização radical da vida. Após a Segunda Guerra Mundial surge no cenário americano um grupo mais jovem de teólogos, afirmando que os temas dominantes da época como a transcendência de Deus, os dilemas humanos de ansiedade, desespero e pecado já não era mais importante na década de 1960, sendo assim, esse grupo procurava enfatizar o total declinio do liberalismo especialmente a teologia dialética com sua ênfase ao desespero existencial e a fé, num Deus totalmente diferente do homem. Esse grupo analisava os sucessos no campo da tecnologia assinalando o crescimento da capacidade do homem de controlar vários aspectos da sua existência. Do outro lado, essa tecnologia tinha uma incapacidade paradoxal de lidar com elementos ocultos e obscuros na existência humana. Este último fato produzia uma sensação de desespero e alienação da parte do grupo mais jovem de teólogos. Juntamente com essa sensação de frustação havia um crescente sentimento de que o cristianismo convencional era irrelevante á era emergente. Os teólogos mais novos sustentavam que a teologia de pós-guerra deixara de dar aos homens e mulheres da década de 1950 qualquer base firme para crença num Deus que se ocupava com empreendimentos humano. Os teólogos da década de 1960 procuravam uma saida em termos de uma secularização mais total da vida, secularização esta que haveria de ser mais aberta do que encoberta. Parecia a estes teólogos recentes que o cristianismo convencional demonstrava uma indiferença geral para com Deus, juntamente com uma crescente preocupação com os assuntos deste mundo. Deus não tinha relevância ao homem moderno. Mas, as vozes principais da teologia mais nova da década de 1960 organizava suas forças para projetar versões seculares do cristianismo como sendo a única força religiosa capaz de enfrentar as tendências inevitáveis da vida hodierna. O movimento em direção a secularidade na teologia aguardava apenas um catalizador radical para abrir um caminho plano para sua aceitação. Este agente catalitico apareceu em meados da década de 1960 no movimento da morte de Deus.


O Termo Secular

Essa palavra vem do latim saeculum, pertencente a uma era, secular é aquilo pertencente a maneira de viver deste mundo, e não a maneira de viver do mundo vindouro. O sentido mais especifico, o termo sugere um modo de encarar a vida sem qualquer referência a Deus ou aos direitos divinos sobre a vida humana. É uma cosmovisão e um estilo de vida que se inclina para profano mais do que para o sagrado, o natural mais do que o sobrenatural. O secularismo é uma abordagem não-religiosa da vida individual e social. Uma Segunda maneira de se entender “secularização” está ligada a uma mudança nos modos de pensar e viver, para longe de Deus e em direção a este mundo. O humanismo renascentista, o racionalismo iluminista, o poder e a influência cada vez maiores da ciência, o colapso das estruturas tradicionais (e.g., da familia, da igreja, da vizinhança), a tecnização da sociedade e a competição oferecida pelo nacionalismo, o evolucionismo e o marxismo, todos têm contribuido para aquilo que Max Weber chamou de “desencantamento” do mundo moderno.


A Teologia da Morte-de-Deus

O clima teológico nos Estados Unidos passou por uma profunda alteração em meados da década de 1960 como resultado da ousada declaração feita por vários teólogos mais jovens: “Deus está morto!”. As vozes principais que foram ouvidas nesta conexão foram Thomas J.J. Altizer, William Hamilton, Gabriel Vahanian e Paulo Vam Buren. Como parte do movimento em direção á secularização da teologia. Não se deve tirar a conclusão, no entanto, que a teologia da morte-de-Deus fosse frivola, nem que seus defensores fossem meros excêntricos que procuravam as manchetes. Pelo contrário, era uma tentativa séria no sentido de projetar um sistema que tinha profundas raizes históricas, e que encorporava suposições sérias a respeito do homem e do seu mundo. Sem dúvida, a própria declaração “Deus está morto” visava chocar o público que lia e obter fama para os aspectos populares de um movimento mais sério.


A Teologia Radical

Thomas J.J.Altizer, ue era, na ocasião, um professor da Universidade de Emory. Não inventou a frase “Deus está morto”, pois quase um século antes Friedrch Nitzsche no seu livro Assim Falou Zaratustra fizera a mesma declaração. Como um dos principais proponentes do ateismo cristão, Altizer fundamentava-se em estudos de religiões comparadas do Oriente e do Ocidente, a fim de defender o regresso ao cristianismo primitivo. Altizer e Nietzsche sustentaram cada um segundo sua própria maneira, que a totalidade da realidade passa por constante destruição e recriação mediante uma dialética irresistivel e sempre continua. Logo, negam todas as formas da antologia tradicional e não dão lugar a qualquer ser soberano incondicionado, mas, sim, somente a um “Deus” que, nalgum ponto da dialética decreta seu próprio aniquilamento. Altizer procura respaudar as suas afirmações para apoiar o seu conceito da morte-de-Deus fazendo uso da passagem de Filipenses que trata do auto esvaziamento (kenosis) de Cristo, e do tema mais amplo da encarnação como modelo para seu conceito da fusão entre um Deus que já não vive mais e o mundo. Deus se aniquilou pessoalmente ao dissolver a distinção entre ele e o homem. Sua base de sustentação é que o conceito do cristianismo histórico neste ponto é inconsiste. Altizer sustenta que o kenosis, ou processo de auto-esvaziamento envolvido na encarnação, era um processo irreversivel. Para ele, a Deidade aceitou o auto-aniquilamento na cruz, e em Cristo pôs em andamento uma forma inteiramente nova de atividade divina mediante a qual as forças redentoras, dantes desconhecidas, entraram em operação. A encarnação, portanto, torna-se um evento de metamorfose, em que Deus se despojou, de modo permanente, da transcendência, do poder e da autoridade-em resumo: de todas as qualidades a Ele atribuidas nas Escrituras cristãs. Num processo de evolução, Deus passou ontologicamente para dentro de Cristo a fim de projetar algum tipo de relacionamento novo e redentivo para a vida do homem. Admirava o uso simbólico que Nietzsche fazia do nome de Zaratustra, notando que o “novo” Zaratustra era usado por Nietzsche para introduzir modos orientais de pensamento. O propósito era inverter as formas da consciência ocidental e indicar o caminho para novos modos para a afirmação da vida que libertariam o homem ocidental de formas perversas da consciência individualista. Altizer vê termos tais como Nirvana, Tao, e Atmam-Brahman como expressões de uma totalidade universal em direção da qual devemos, com a ajuda do pensamento oriental, avançar a fim de que a Nova Jerusalém escatológica seja nossa. Assim, somente através da ajuda do modo oriental de encarar a realidade é que o homem ocidental pode deixar de lado seu conceito enganador de uma Totalidade imutável e transcendente, e chegar a perceber através de olhos novos a forma de consciência que marca a Nova Jerusalém, ou a “Cristo escatológico”- distinguido, naturalmente, do Jesus histórico.


A Experiência da Ausência de Deus

William Hamilton identifica-se com os teólogos da morte-de-Deus, mas descreve de modo algo menos concreto e sistematizado do que Altizer acerca do suposto falecimento de Deus. Dentre os teólogos da morte de Deus, é considerado o mais inteligivel de todos. Suas obras são caracterizadas por uma viva apresentação e um estilo literário atraente. Charles Bent afirma que o dito de Pitágoras de que o homem é a medida de todas as coisas, poderia ser uma análise concisa da visão antropocêntrica que Hamilton tem do ser humano do século vinte. Acreditando diferentemente de Altizer, não coloca a morte de Deus em qualquer ponto especifico da história, mas restringe-se a vê-la como “um evento histórico-cultural” na Europa e nos Estados Unidos do decurso dos últimos duzentos anos. Hamilton acredita que esta é uma tendência irreversivel; o homem, portanto, deve aprender a conviver com o fato da morte histórica e cultural de Deus. Para ele, o homem moderno atingiu a maioridade e está diante dele um otimismo novo. Por isso ele deve, não somente afirmar, mas também desejar a morte de Deus, reconhecendo que o homem neste mundo é completamente independente e autônomo. Deus já é necessário para libertar o homem da inquietude, do desespero, ou da justiça-própria; não há, realmente, qualquer Deus para assim fazer. O homem, tendo chegado á maioridade, não deve pedir que Deus faça em prol dele aquilo que o mundo, ou seus próprios recursos intrinsecos, podem fazer por ele. Logo, diz ele, devemos ser suficientemente maduros para confiar que o mundo “seja o cumpridor das nossas necessidades e o solucionador dos nossos problemas, e Deus, para ele de alguma forma estar a nosso favor, deve vir a nós dentro de algum papel”. Hamilton resume seu modo de entender o movimento nos seguintes termos: devemos afirmar a morte de Deus, visto que já não podemos falar confiantemente acerca dEle. Devemos esperar que Ele reapareça num estilo que é crivel para nós em nossa tecnológica. Afirma que o protestante de hoje “não tem Deus, não tem fé em Deus, e afirma tanto a morte de Deus como a morte de todas as formas de teismo”.


Religiosidade Teonômica

Gabriel Vahanian.
O trabalho de Vahanian é dedicado a procurar na tradição cristã os elementos que contribuiram para a morte de Deus e a investigar as lições que os cristãos da presente era podem tirar disto. Na opinião desse teólogo de caracteristicas radicais, o conceito que o homem moderno tem hoje de Deus é irrelevante, idólatra e sem sentido. “Deus morre sempre que o conceito de Deus se torna um idolo ou um acréscimo cultural. O presente fenômeno cultural da morte de Deus existe porque as formas de pensamento dominantes da cultura ocidental são agora caracterizadas por um imanentismo radical que é diametralmente oposto á concepção cristã de uma dimensão transcendente e sacramental que impregna a existência humana”. O reino do céu foi imaginado de tal modo que o próprio Cristo tomou o aspecto de um juiz que separaria os eleitos dos réprobos. É necessário dizer que esse dualismo que separa os cristãos dos não-cristãos equivale inevitavelmente a uma admissão fundamental de que a fé está a perder a sua razão de ser em uma relação ao presente.mais adiante afirma: Quando chega ao terceiro estádio, o imediato da soberania de Deus, aqui e agora, já se tornou mito. Pelo menos já não é eficaz. Enquanto a autonomia das comunidades primitivas e a liberdade do homem eram afirmadas na idéia do governo direto de Deus, o afastamento dualista do céu e de Deus já não garange agora qualquer dualidade presente ao destino do homem e á dimensão comunitária da má existência. Referindo-se ao movimento do evangelho social, Vahanian afirma que ele tomou a forma de apontamento teológicos ao liberalismo, concentrou-se no valor do individuo e na necessidade de que as instituições religiosas nutram a ilusão de tentar estabelecer o reino de Deus na terra, e era caracterizado pela confiança no desenvolvimento cientifico e num falso conceito da relação religião e cultura.


A Filosofia Linguistica

Paul Van Buren é comumente considerado parte do movimento da morte-de-Deus, embora sua abordagem seja consideravelmente diferente daquelas dos demais confessados expositores desta teologia, notavelmente professor Altizer. Ao evés de procurar descobrir e elaborar alguma razão cósmica e metafisica para a morte de Deus, ocupa=se com o aspecto linguistico da questão. Começa como proposição de que hoje não faz sentido falar em Deus de modo algum;as leis da linguagem humana tornaram a própria palavra Deus inoperante. O ponto crucial do seu argumento é que o conhecimento verdadeiro e o sentido relevante podem ser derivados somente de dados que são empiricamente verificáveis. O conhecimento e o significado que são indicados pela linguagem acerca de Deus não estão á altura deste critério. Van Buren observa o homem moderno através da pesquisa linguistica e do principio da verificação. Sua análise é mais de conceitos que de palavras e constitui um estudo critico e rigoroso do significado textual. Busca uma forma de cristianismo e ética, na qual o cristão precisa fazer seus juizos de valor conforme os critérios empiricos do mundo moderno, considerando sem significado os conceitos transcendentes e transempirico do Evangelho e desprezando as formulações biblicas como ininteligiveis á luz do pensamento moderno. No dificil processo adotado por Van Buren de verificação do cristianismo, as doutrinas basilares perdem totalmente seu sentido; Com respeito á natureza de muitas declarações biblicas, ele escreve: “Afirmações de conteúdo-sentido não se podem verificar por meios empiricos ou de senso comum. Isto é, não podem ser verificadas por uma experiência-sentido compartilhada, visto que elas não dizem o que todos nós podemos ver, mas somente o que eu vi. Nem podem ser verificadas em relação a dados empiricos que estão ao dispor de todos os investigadores competentes que os queiram examinar, porque mais uma vez, uma afirmação de conteúdo-sentido refere-se ao que eu vi, não ao que está “lá para todos verem”. Só eu posso registrar o que estava no espelho do meu pensamento. Mas isto é só para dizer que afirmações de conteúdo-sentido não são asserções empiricas, e não se pode afirmar mais nada contra elas. O processo de verificar uma afirmação de conteúdo-sentido é ver se as palavras e as ações da pessoa que faz a afirmação se coadunam com ela”.


Secularização E Urbanização

“A Cidade Secular”

Harvey G. Cox teólogo protestante norteamericano, nascido em 1929. Formou-se em teologia em 1955 e no ano seguinte ordenado pastor da igreja Batista Americana. A partir de 1962, inicia suas atividades como membro do Conselho Mundial de Igrejas e é designado para trabalhar com a Grossner Mission em Berlim Oriental, que tem por objetivo facilitar as comunicações entre os cristãos das duas alemanhas. É professor de Teologia em Harvard desde 1967. Professor Cox começa com a asseveração de que a cidade é tanto o simbolo quanto a secularização- de desviar a atenção do homem para longe daquilo que anteriormente tinha sido considerado sagrado em direção das questões deste mundo e desta era. Equipara este fato com aquilo que Dietrich Bonhoeffer chamava de “o homem que atingiu a maioridade”. Vê a existência tecnopolita como agente produtora de uma mentalidade para a qual as questões e preocupações religiosas são supérfluas. A cidade é a agência para a secularização em nossos tempos. Não se pode entender o pensamento de Cox sem compreender seu modo de entender o processo da secularização e as forças que a produziram. Segundo o ponto de vista dele, o conceito da criação servia para “desencadear” a natureza, ao fazer separação entre a natureza e Deus. De importância maior é o conceito do professor Cox de que a tradição judaico-cristã tem aberto o caminho no processo da secularização. O homem foi deixado por conta própria através da desconsagração da natureza, da politica, e dos valores; mas ainda precisa fazer sua caminhada através daquilo que Cox chama de “residuos maciços de cosmovisões mágicas e supersticiosas”.

A “cidade secular” é, para Cox, a arena dentro da qual toda a atividade libertadora e renovadora entre os homens e mulheres pode ser achada. Para ele, a palavra secular é tanto atual quanto digna de louvor. Vê o papel da teologia na sociedade urbana vindoura como sendo o de libertar o homem de toda a dependência de modos religiosos ou metafisicos de entender a Deus. Conclama o homem tecnopolita a “aceitar o peso total dos problemas deste mundo como sendo a dádiva do seu Criador”. O estilo de vida do homem e da mulher da tecnópolis seria portanto, o do mundanismo urbano, sem mistura com preocupações religiosas ou metafisicas. Em sua obra A Cidade do Homem, editada em 1966, Cox sugere que os cristãos participem do novo mundo secularizado e elaborem uma nova teologia condizente com as condições sociais e tecnologicas modernas. As igrejas devem receber com naturalidade suas novas tarefas no mundo secularizado, descobrindo mesmo sua responsabilidade essencial. Afirma que a pregação de Deus no mundo secularizado só pode ser realizada através de formas seculares e pragmáticas.


Considerações Finais

A idéia dos teólogos da morte-de-Deus é que o cristão moderno deve ser um homem também voltado para as atividades seculares, dedicado á causas humanistas, dotado de uma visão secular da existência. O processo de secularização é resultado direto e correto da fé biblica, como se o amadurecimento espiritual levasse o individuo de uma base espiritual para uma base profana. Nas mentes de muitas pessoas, foi o que bastou para que idéias a cerca de um cristianismo secular, de um Cristo secular, de uma conversão secular, de uma salvação secular e de missões evangélicas seculares substituissem as antigas noções espirituais ensinadas nas Escrituras Sagradas.



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