sábado, 22 de novembro de 2008

A Carta de Tiago

VISÃO GERAL

O autor apresenta-se como “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”(1,1). A opinião tradicional identifica-o como Tiago “irmão do Senhor”(Gl 1,19), filho de Maria de Cléofas (Mc 15,40), primo de Jesus (Mc 6,3), martirizado em 62 dC. Não é certo se fazia parte dos Doze (Mc 3,18s; Jo 7,3s). Mas teve uma aparição do Ressuscitado (1Cor 15,7), em conseqüência da qual se converteu, tornando-se o chefe da comunidade primitiva (At 12,17; 21,18; Gl 1,16). Na hipótese de a epístola não ser autêntica, é sem dúvida a este Tiago que o autor atribuiu o seu escrito. Muitos, de fato, negam que Tiago “irmão do Senhor” seja o autor da epístola, em razão da ausência de concepção legalista, da falta de referências à vida de Jesus, da canonicidade da epístola tardiamente reconhecida (III/IV séculos) e do grego da epístola, por demais perfeito num palestinense. O autor poderia ser um judeu-cristão helenista e grande conhecedor do AT. A epístola poderá ter sido escrita na Síria pelo final do I século.
Mais do que epístola, Tiago é um escrito didático-exortativo, influenciado pela tradição parentética grega e judaica, especialmente sapiencial. As exortações parecem corresponder ao contexto político e social do final do I século. Contra a agitação política e a agressividade social de então, contra a detração e a deslealdade, o autor recomenda a humildade, a paciência (1,2s.12.19s) e a lealdade (1,25; 2,8; 3,17; 4,6. 10s). À agressividade social ele contrapõe o Evangelho e o mandamento do amor, chamados “a lei perfeita da liberdade”. Mas ao mesmo tempo se coloca do lado do pobre, defende sua dignidade e seu direito a melhores condições de vida, e critica o rico opressor e explorador (1,9-12; 2,5-9; 4,13–5,6). Condena a discriminação social nas assembléias litúrgicas (2,1-7) e a sabedoria mundana que leva à discórdia (1,5; 3,13-16). Insiste na responsabilidade social do cristão: assistir os órfãos e as viúvas (1,27), vestir os nus e dar de comer a quem tem fome (2,15s; Mt 25,35-36). A fé deve inspirar todas as ações (2,14s), como já dizia Paulo (Gl 5,6. 16s; 1Cor 13; Rm 12–15). Em suma, prega a verdadeira sabedoria de Deus, sem fingimento, pautada pela coerência entre pensamento e ação, entre fé e obras.
No passado os protestantes consideravam Tiago como “epístola de palha”(Lutero) e os católicos a valorizavam, sobretudo por causa do sacramento da Unção dos Enfermos (5,14-15) e da polêmica contra a concepção protestante da salvação unicamente pela fé (2,14-26). Mas o mundo em que vivemos, onde os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres, nos levam a redescobrir um valor sempre atual da epístola de Tiago: a responsabilidade ética e social da vida cristã.


INTRODUÇÃO DO LIVRO

A Carta de Tiago foi escrita a todos os cristãos do seu tempo e trata de assuntos práticos da vida cristã. O autor fala de pobreza a riqueza; tentação; preconceito; maneira de viver; o falar; o agir, o criticar; orgulho e humildade; paciência, oração e fé. Ele põe acima de tudo a necessidade de não somente crer como também agir. Não adianta nada alguém dizer que tem fé se não provar por meio das suas ações que a sua fé é viva e verdadeira. "Porque, assim como o corpo sem o espírito esta morto, assim também a fé sem ação esta morta" (2.26). A verdadeira fé cristã se manifesta em ações cristãs. O autor chama a si mesmo de "mestre" (3.1). Com clareza e vigor Tiago nos ensina como devemos agir e viver, se é que queremos ser cristãos.


ESBOÇO

- 1.1 Fé e sabedoria
- 1.2‑8 Pobreza e riqueza
- 1.9‑11 Provas e tentações
- 1.12‑18 Ouvir e fazer
- 1.19‑27 Tratamento igual para todos
- 2.1‑13 Fé e ação
- 2.14‑26 Dominar a língua
- 3.1‑12 A verdadeira sabedoria
- 3.13‑18 O cristão e o mundo
- 4.1‑5.6 Resistir as paixões


CONTEÚDO

A carta de Tiago tem uma série de homilias sem muito relacionamento umas com as outras, resiste a uma demarcação estrutural clara. Mas é possível discernir cinco seções gerais.
Preocupação e maturidade cristã (1.1‑18). Depois da indicação dos destinatários e da saudação (1.1), Tiago inicia com uma seção em que trata de diversos temas, entre os quais o sofrimento cristão ("provações") e o mais proeminente (1.2‑18). Ele incentiva seus leitores a descobrirem relevância e propósito nos sofrimentos por que passam (1.2‑4), a orar com fé pedindo sabedoria (1.5‑8) e a aplicar um enfoque cristão à pobreza e a riqueza (1.9‑11). Depois de voltar à terra das provações (1.12), ele passa para a questão da tentação (1.13‑15), transição esta facilitada pelo fato de que as palavras podem ter a conotação tanto de "provações" quanto de "tentações". A seção termina com um lembrete da bondade divina em dar (1.16‑18).
O cristianismo verdadeiro esta em suas obras (1.19 2.26). A segunda seção da carta caracteriza‑se pela concentração em três vocábulos‑chaves: "palavra [de Deus]" (1.19‑27), "lei" (2.1‑13) e "obras" (2.14‑26). Depois de uma advertência contra a maledicência e a ira (1.19‑20), Tiago incentiva seus leitores a "acolher com mansidão a palavra em vos implantada" (1.21) e depois se desenvolve essa exortação mostrando que o verdadeiro acolhimento da palavra de Deus implica em praticá‑la (1.22‑27). Como exemplo importante de "praticar a palavra" Tiago cita a necessidade de os cristãos serem imparciais ao lidarem com o próximo. Somente assim cumprirão a "lei régia" e escaparão ao juízo (2.1‑13).
A importância das ações dos cristãos em evitarem o juízo do ensejo e famosa analise de Tiago da relação entre fé e obras (2.14‑26). Tiago insiste em que a fé verdadeira sempre se caracteriza pela obediência e que somente esse tipo de fé demonstrada em obras trará salvação.
Dissensões dentro da comunidade (3.1‑4.12). Nenhuma interrupção obvia indica o inicio da terceira seção da carta. Mas podemos entender as advertências de Tiago sobre a fala inconveniente (3.1‑12; 4.11‑12) como indicação de um parêntese em que Tiago se concentra de modo geral no problema de dissensões entre cristãos a suas raízes na inveja. Voltando a uma terra abordada anterior­mente (1.19‑20, 26), Tiago emprega uma série de figuras de linguagem vividas e memoráveis para advertir os cristãos do poder e do perigo da língua (3.1‑12). Depois ele ataca frontalmente o problema das dissensões, remontando essa agitação exterior ao tipo errado de sabedoria (3.13‑18) e a desejos frustrados (4.1­3). O texto de 4.4‑10 apresenta uma advertência séria contra um cristianismo de concessões e convoca os leitores ao arrependimento. A seção termina com uma exortação final sobre a fala (4.11‑12).
Implicações de uma cosmovisão cristã (4.13‑5.11). Esta seção e ao menos óbvia, mas podemos sugerir que sua terra principal tem a ver com uma cosmovi­são cristã. Uma dessas implicações é a necessidade de levar Deus em conta em todos os planos que fazemos (4.13‑17). Outra é o reconhecimento de que Deus, quando da volta do Senhor, julgará os ricos ímpios (5.1‑6) e recompensará os justos (5.7‑11).
Exortações finais (5.12‑20). Tiago conclui com: exortações sobre juramentos (em harmonia com o ensino de Jesus, Tiago insta que juramentos sejam evitados [5.12] ); sobre a oração, especialmente pela cura física (5.13‑18); e a responsabilidade de os crentes cuidarem da saúde espiritual uns dos outros (5.19‑20).


AUTOR

A carta declara ter sido escrita por "Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (1.1). A ausência de maiores detalhes indica um Tiago bem conhecido, é natural pensarmos antes de tudo nos homens com esse nome que são mencionados no Novo Testamento. Há pelo menos quatro: (1) Tiago, o filho de Zebedeu, irmão de João, um dos Doze (Mc 1.19; 5.37; 9.2; 10.35; 14.33); (2) Tiago, o filho de Alfeu, também um dos Doze (Mc 3.18; ele talvez seja "Tiago, o menor", de Mc 15.40); (3) Tiago, o pai de Judas (Lc 6.16; At 1.13); (4) Tiago, "o irmão do Senhor" (GI 1.19), que desempenha um papel de liderança na igreja primitiva em Jerusalém (At 12.17; 15.13; 21.18).
Destes quatro, o último é de longe o mais óbvio candidato à autoria desta carta. Tiago, o pai de Judas, é por demais obscuro para ser seriamente considera­do; o mesmo vale, num grau menor, para Tiago, o filho de Alfeu. Por outro lado, Tiago, o filho de Zebedeu, tem um papel de destaque entre os Doze, mas a data de seu martírio ‑ 44 d.C. Então, Tiago, o irmão do Senhor, que certamente é o Tiago mais proeminente na igreja primitiva.
A circunstância que corrobora essa opção é a semelhança marcante entre o grego da epístola de Tiago e o da fala atribuída a Tiago em Atos 15.13‑21.2 Também, em consonância com essa identificação, acham‑se as freqüentes alusões na carta aos ensinos de Jesus, o clima judaico do livro e a autoridade que o autor arroga a si ao dirigir‑se "as doze tribos que se encontram na Dispersão". O testemunho cristão primitivo não é unânime neste aspecto, mas tende a favorecer a mesma identificação.
O argumento para identificar a carta com Tiago, o irmão do Senhor, é, portanto, bastante forte. Apesar disso, teorias alternativas de autoria tem sido apresentadas e devem ser analisadas.
Muito provavelmente foi escrita entre 45-49 dC.


LOCAL DE ORIGEM

Caso o autor da carta seja desconhecido, então é possível que ela tenha provindo de praticamente qualquer lugar. Se Tiago, o irmão do Senhor, é o autor desta carta, então ela provavelmente foi escrita de Jerusalém durante o tempo em que ele liderou a igreja cristã em Jerusalém (Segundo a tradição Tiago foi o primeiro bispo de Jerusalém). O contexto social e econômico pressuposto na carta diz respeito aos leitores e ao autor, e também se coaduna com uma procedência palestina: comerciantes que percorrem imensas regiões em busca de lucro (4.13‑17), proprietários de terras que residiam em outros locais e tiravam vantagem de uma força operadora cada vez mais pobre e desprovida de terras (2.5‑7; 5.1‑6) e acalorada controvérsia religiosa (4.1‑3).


DATA

A explicação oferecida acima para o relacionamento entre o ensino de Tiago 2.14‑16 e Paulo requer que se atribua a Tiago uma data um pouco depois de o ensino de Paulo começar e ter influência, antes de Tiago e Paulo se encontrarem no Concílio de Jerusalém (At 15). Paulo dedicou‑se ao ministério de ensino e pregação desde a ocasião de sua conversão (cerca de 33 d.C.), e ao Concílio de Jerusalém provavelmente se deve atribuir a data de 48 ou 49. Se, então, admitirmos que passou algum tempo até que o ensino Paulino da justificação pela fé se desenvolvesse e se tornasse conhecido, a data mais provável pare a carta de Tiago seria em algum momento no inicio ou meados dos anos 40. Essa data harmonize‑se muito bem com as circunstâncias e ênfases da carta. Não há nenhum indicio de conflito entre cristãos judeus e gentios (o que seria de esperar se a carta tivesse sido escrita depois do Concílio de Jerusalém), e a teologia da carta é relativamente pouco desenvolvida.
Existem duas alternativas básicas para essa data. Outros que identificam Tiago, o irmão do Senhor, como o autor atribui a carta uma data perto do fim de sue vida (ele foi martirizado em 62 d.C.). Em favor desta data há as seguintes alegações: (1) a necessidade de as cartas de Paulo serem suficientemente conhecidas pare que Tiago pudesse estar respondendo ao seu ensino (2) o problema do mundanismo, típico de cristianismo de segunda geração, que Tiago enfrenta na carta. Entretanto, o mundanismo dificilmente precisa de um período de tempo para se desenvolver e, como mostramos, Tiago 2.14‑26 faz mais sentido caso Tiago nunca tenha ouvido Paulo nem tenha lido nenhuma de suas cartas. Uma data próxima do fim do século I é geralmente adotada pelos que acreditam que a carta é pseudônima.


DESTINATÁRIOS

Tiago foi incluído entre as denominadas epístolas gerais porque não se dirige a uma igreja específica. A carta, porém, foi com quase toda certeza escrita para um público específico. Diversos aspectos da carta deixam claro que os destinatários eram cristãos judeus, a maneira natural de mencionar o Antigo Testamento (1.25; 2.8‑13), a referência ao lugar onde os destinatários se reuniam como uma sinagoga (2.2) e o uso disseminado de metáforas do Antigo Testamento e do judaísmo. Ademais, trechos tais como 5.1‑6 dão a impressão de que a maioria dos leitores eram pobres ‑ embora se possa alegar com bons argumentos que 1.9‑11; 2.1‑4 e 4.13‑17 pressupõem a presença de alguns cristãos mais ricos entre os leitores.


NATUREZA E GÊNERO

Conquanto a carta de Tiago apresente uma introdução epistolar típica, falta-lhe a costumeira conclusão epistolar. Ademais, ela não traz nenhuma referência pessoal, como saudações, planos de viagem ou pedidos de oração. Tudo isso sugere que é melhor ver Tiago como o que poderíamos chamar de carta literária. Provavelmente ela foi escrita para as várias comunidades em que os dispersos paroquianos de Tiago haviam‑se estabelecido.


TIAGO EM ESTUDOS RECENTES

Como vimos, tem havido um renovado interesse pela história da redação de Tiago, havendo vários estudiosos que propõem que a forma atual da carta se deve a um redator que trabalhou em cima de material mais amigo. A incisiva condenação dos ricos (5.1‑6) naturalmente fez com que a carta se tornasse uma das favoritas daqueles que estão propondo diversas formas de teologia da libertação. Talvez, no entanto, o desdobramento mais interessante tenha sido a atenção dada ao contexto social da carta. Em consonância com um renovado interesse por essa terra nos estudos neotestamentários em geral, estudiosos tem procurado identificar o contexto histórico e social da carta, para então usar essa reconstrução como uma chave hermenêutica para a interpretação que fazem. Uma dessas reconstruções entende que a carta de Tiago é dirigida a cristãos judeus oprimidos e empobrecidos, e que são atraídos pela filosofia revolucionária que acabou dando origem ao movimento zelote. Tiago defende a causa deles (5.1‑6) a os direitos dos pobres oprimidos, ao mesmo tempo em que os adverte a não empregarem meios violentos para aliviar sua situação (4.1‑3). Essas reconstruções podem ser esclarecedoras, mas temos de ter o cuidado de não ser mais específicos do que o texto nos permite, caso contrário estaremos forçando a carta a se conformar a um molde em que o autor não pretendeu colocá‑la.


A CONTRIBUIÇÃO DE TIAGO

Entre as contribuições de Tiago destacasse sua insistência em que a fé cristã autêntica tem de se evidenciar em obras. Ele se opõe resolutamente a tendência tão comum entre os cristãos de se satisfazerem com uma fé acomodada e que faz concessões, que procura tirar o melhor proveito deste mundo e do vindouro. Para Tiago o pecado fundamental é o coração dividido (1.8; 4.8) e ele insiste em que os cristãos se arrependam disto e voltem ao caminho que conduz ao caráter integro e perfeito que Deus deseja.
A própria maneira incisiva com que Tiago faz afirmações a esse respeito suscita perguntas a respeito da perspectiva teológica da carta, em especial quando Tiago insiste em seu argumento a ponto de vincular justificação as obras (2.14‑16). Pois a essa altura ele parece contradizer a insistência de Paulo de que a justificação provem exclusivamente por meio da fé (Rm 3.28). Muitos se satisfazem em ver aqui uma indicação da profunda diversidade dentro do Novo Testamento, e acham que Paulo e Tiago dizem coisas diferentes e conflitantes sobre como alguém é justificado perante Deus. Mas não é necessário adotar uma posição tão destrutiva; existem pelo menos duas maneiras legitimas de harmonizar Tiago e Paulo nessa questão.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- Introdução ao Novo testamento – D. A. Carson, Douglas J. Moo, Leon Morris – Editora Vida Nova.
- CD Bíblia sagrada Seafox.
- CD Bíblia sagrada Laicus.

3 comentários:

  1. Quais seriam as duas maneiras de harmonizar os textos de Tiago e Romanos?

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    1. O Paradoxo é resolvido da seguinte forma. Em Romanos a Fé é meio pelo qual nos apropriamos da Justificação "Justificados pela fé temos paz com Deus1". Em Tiago, o autor lança mão da obras como evidência daquele que fora Justificado pela Fé. Ou seja, as boas obras são o sinal visível do eleito justificado.

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  2. Obrigado pelo texto. Informações muito relevantes. Me ajudou muito.

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